em
montes claros, descobrimos que algumas estações não são estações. são “pés de
estribo”. e os “pés de estribo” foram os primeiros a darem linha depois que o
trem parou. a parada de antônio
olinto,
então, logo teve de deixar o nosso cronograma, não havia mais como
alcançar aquela memória.
seguimos.
glaucilândia.
impressão
de que a velha estação tinha sido ocupada. se sim, as gentes estavam fazendo
bom uso: na horta plantada o mamão já crescia.
ao
longe, o som de uma água... e fomos ver, tinha rio, gente e uma ponte de
atravessar carro. não entramos nem atravessamos, seguimos.
pires
era cidade conhecida de festas e gentes. tinha sido muito movimentada na época
do trem de passageiros, eu tinha dado fé disso nas conversas em montes claros
... e por isso mesmo pesou-me a ausência.
pra
mim aquele vazio tinha explicações: o sol de rachar, a calma e o sono do depois do almoço, a
respiração presa de curiosidade e o isolamento.
a verdade é que quando o trem foi embora, o ônibus que chegou era caro demais...
e muitcho do sem graça.
o povo saiu mais dali não,
foi envelhecendo.
a estação foi arrancada pelas pessoas que repararam no seu desuso.
afinal,
esse trem volta?
será?
camilo
ainda tinha estação, mas não vi vida.
vontade
de pintar tudo de urucum.
anunciaram uma reforma, mas temi aquelas janelas
muradas e a tal da modernização. seria reforma ou desmanche? pra virar
shopping, estacionamento ou igreja?
em bocaiuva confirmamos o fato, seria biblioteca. bom lugar prum rolezinho!!
e
comecei a perceber que as cidades tem alma e gênero. umas mais generosas que
outras.
saímos
da grande boca e entramos em bocaiuva.
ali as
coisas tinham funcionamento muito
simples: pra chegar em algum lugar, no centro por exemplo, era logo ali, e
quando chegasse lá, era lá mesmo. esse era o raciocínio lógico da veia
científica de bocaiuva (desde que jose
maria
alkmin
em pessoa encomendou um eclipse prali,
constatou-se o fato).
antes
de visitar o centro cultural que tinha sido reformado e virado museu, cheio de
artefatos e fatos da ferrovia, procuramos um lugar arejado e com vista pra
enorme lua... redondiiinha
mesmo. saiu melhor que encomenda! quem pode imaginar um lugar sem muros,
portanto sem portas e sem janelas?! pausa(s) para o diretor! a céu aberto,
também curtiam os montes de cães, dormindo nos bancos das praças, enquanto que
as pessoas se espremiam para não incomodar aquele sono
abençoado!

na
manhã seguinte, antes ainda do bate boca com papo, ops bate papo com boca, demos um
pulinho em
navarro.
na estação em funcionamento, contou-nos dona vanderleia
que são uns três trens de trinta vagões que a fca
passa ali por dia. se é difícil falar esse trava línguas, pra nós também foi
difícil contabilizar o carregamento.
de
dona vanderleia,
colhemos histórias de trem: pai ferroviário, tinham se mudado pra sumpaulo.
com a morte desse, retornaram pra navarro... de trem! todo mês ela ia em montes
claros cu'a vó, buscar o salário... de trem. depois que o trem cabô,
foi mais não que era muito caro. e montes claros ficou longe....
50km
de volta.
a
reforma da estação de bocaiuva
respondeu a pergunta que carregamos desde o primeiro dia de ensaio:
o que pode
ser feito com 6 bilhões de reais?
(valor aproximado do que deixou de ser
arrecadado pelo governo brasileiro com a isenção do ipi do automóvel no ano de 2013)
RESP: se o irmão carro compartilhasse com o irmão trem, poderíamos
ter 10 mil de estações ferroviárias reformadas. o brasil tem 10 mil de
estações?
o
papo de boca foi papo de modernidade. maria
fumaça é trem de turismo, pra ser trem de transporte a máquina tem que chegar
minimamente a 180 km/h.
trilho
tem,
ipi
também.
também
tem gente querendo vender locomotiva e gente querendo viajar...
quem quer
comprar? quanto vale? quantas, vale?