terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Monte Claros, marco zero


- ISSO É CHEIRO DE GAMBÁ! QUANDO ALGUÉM ATROPELA UM GAMBÁ, CHEIRA QUILÔMETROS. ALÍ Ó, ALÍ É ONDE TEM OS JARATATACAS.


a viagem para montes claros foi em linha reta.

saímos de bh numa manhã de segunda e chegamos lá debaixo de um sol de fim de tarde que mais parecia sol de meio dia. o prelúdio da história anunciando o clima da viagem. estávamos no norte de minas!

“essa estrada
leva e traz dor e alegria
na primeira caminhada
na primeira companhia
vim do sertão
lá do meio da chapada
tanto tempo tanta estrada
tanta curva perigosa
é muito fácil
todo passarinho voa
toda mata eu sei que é boa
quando não tem alçapão
tem nada não
caminho é por onde se passa
e m
ês que vem
eu vou de trem pra montes claros”

Grupo Raízes, De Trem Pra Montes Claros
- “PRA MEXER COM TREM, TEM QUE TER UMA PACIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA.”

ali no centro cultural de montes claros, nossa primeira manhã de visita, nossa quase única referência, saboreamos o sertão mineiro. essa hospitalidade, moço, tem igual não. e com muita generosidade, mais que isso, irmandade de artista, aroldo pereira nos ajudou a desenhar o que seria nossa estadia em montes claros... e o tom da conversa: acentuada!

começamos a compreender o que era o trem pr’aquela gente. e o que foi a parada do trem. foi um ato fernando real. equivaleu ao golpe collor, moço. as pessoas se acabaram. foi uma tragédia social.

assim descobri o primeiro (sobre)nome do trem:

TREM SOLIDÁRIO.

“Cheira, macaxeira senhora, Batata doce na hora, Quer tapioca senhor? Quentinha agora”
Arruar, Banda de Pau e Corda
e de mesmo sobrenome, vislumbrei sua família:
o economia solidária
o comunidade
o diversidade
o troca
o cultura
o (será que eu chegaria na PERMAcultura, que é cultura permanente...? ainda não, pois como sabemos, DO JEITO QUE ERA o trem não permaneceu... haveria de retornar? como haveria de ser o trem pra voltar e ficar?)

ESSA SE TORNOU MINHA PERGUNTA,
MEU RECORTE, MEU FOCO.

cheguei no TREM SOCIAL

e foi aí que embarcou meu primeiro personagem. sua fala mais importante:

O TREM NÃO É DA FCA, É CONCESSÃO
... mas isso pouca gente sabe.

um andarilho.
com o olho pregado na linha, esse sujeito andou de montes claros à monte azul, parou em cada estação, conversou com cada gente, se inteirou de cada situação, regou e plantou sementes de trem. pra ele era o seguinte: trem de passageiros nos trilhos. nós também ou ninguém.

e com muito respeito, engrossamos o coro:

ai ai ai,
num mexe cumigo não
sem trem de passageiro
carga aqui num passa não

depois vimos escrito em cartazes, filme da última viagem:

ninguém é mais do que ninguém
queremos nosso trem
(com fé em deus)

o trem não pode parar
o pobre precisa viajar

(com fé em deus)

fim da estrada
esse dia terrível ficará na história de monte azul

em setembro o trem chegou. em setembro partiu. moço, isso aqui se impregnou num desencanto.

“a minha rede
ainda tem seu cheiro
minha moringa
ainda tem seu gosto
amanhã já é janeiro
pra quem partiu em agosto
lua nova cheia de alegria
brilhava nos seus olhos
naquele dia
eu não sabia sabiá
que era o olhar
de quem partia
você foi levando as águas
faz é tempo que ch
oveu
não sei quem mais chora as mágoas
se é a terra ou se sou eu”
Minha rede, Roque ferreira
MAQUINISTA NÃO ERA SÓ CONDUTOR. ERA TUDO.

fomos ter, então, com o segundo personagem do meu trem.

começou na rede como categoria de base. terminou como maquinista. nunca deixou o sindicato. trabalhou ali 24 anos, 7 meses e 12 dias. fez a última viagem do TREM AZUL, depois pediu desligamento. era tanto “pelo amor de deus, moço, num caba cum trem naum...” e aquilo ia machucando... porque o ferroviário, el’apega com as coisa.

esse aqui esteve em bh puxando faixa, queria dizer que NÓS éramos contra aquele modelo de privatização.
-nós quem ô capiau? é deputado, por acaso?
-ô pião, você é FERROVIÁRIO?
(...claro que não... quem não é ferroviário não leva NÓS no coração... leva SÓS, solidão.)

esse era o FAMIGERADO TREM BAIANO.

SOMOS FERROVIAS, PORTOS E TERMINAIS. SOMOS TODOS. SOMOS UM. SOMOS A VL!

entendi. essa privatização só aconteceu porque o governo era vagabundo. em país de primeiro mundo, a concorrência do trem é com companhia de avião. governo mancomunado com construtora, com empresa de ônibus, com o diabo. Ê FERNANDO HENRIQUE DO CAPETA!

e rachamos o pequi. depois do beleza, fomos embora dali...


“Foi então que um violeiro chegando na região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu
coração”
Saga da Amazônia, Vital Farias
(http://www.youtube.com/watch?v=HnX4VFz4EOs)

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