- ISSO É CHEIRO DE GAMBÁ! QUANDO ALGUÉM ATROPELA UM GAMBÁ, CHEIRA QUILÔMETROS. ALÍ Ó, ALÍ É ONDE TEM OS JARATATACAS.
a
viagem para montes claros foi em linha reta.
saímos
de bh
numa manhã de segunda e chegamos lá debaixo de um sol de fim de tarde que mais
parecia sol de meio dia. o prelúdio da história anunciando o clima da viagem.
estávamos no norte de minas!
“essa
estrada
leva e traz dor e alegria
na primeira caminhada
na primeira companhia
leva e traz dor e alegria
na primeira caminhada
na primeira companhia
vim
do sertão
lá do meio da chapada
tanto tempo tanta estrada
tanta curva perigosa
é muito fácil
todo passarinho voa
toda mata eu sei que é boa
quando não tem alçapão
tem nada não
caminho é por onde se passa
e mês que vem
eu vou de trem pra montes claros”
lá do meio da chapada
tanto tempo tanta estrada
tanta curva perigosa
é muito fácil
todo passarinho voa
toda mata eu sei que é boa
quando não tem alçapão
tem nada não
caminho é por onde se passa
e mês que vem
eu vou de trem pra montes claros”
Grupo
Raízes, De
Trem Pra Montes Claros
-
“PRA MEXER COM TREM, TEM QUE TER UMA PACIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA.”
ali
no centro cultural de montes claros, nossa primeira manhã de visita, nossa
quase única referência, saboreamos o sertão mineiro. essa hospitalidade, moço,
tem igual não. e com muita generosidade, mais que isso, irmandade de artista, aroldo
pereira nos ajudou a desenhar o que seria nossa estadia em montes claros... e o
tom
da conversa: acentuada!
começamos
a compreender o que era o trem pr’aquela
gente. e o que foi a parada do trem. foi
um ato fernando real. equivaleu ao golpe collor, moço. as pessoas se acabaram. foi uma tragédia social.
assim
descobri o primeiro (sobre)nome do trem:
TREM
SOLIDÁRIO.
“Cheira, macaxeira senhora,
Batata doce na hora, Quer tapioca senhor? Quentinha agora”
Arruar,
Banda de Pau e Corda
e
de mesmo sobrenome, vislumbrei sua família:
o economia
solidária
o comunidade
o diversidade
o troca
o cultura
o (será
que eu chegaria na PERMAcultura,
que é cultura permanente...? ainda não, pois como sabemos,
DO JEITO QUE ERA o trem não permaneceu... haveria de retornar?
como haveria de ser o trem pra voltar e ficar?)
ESSA
SE TORNOU MINHA PERGUNTA,
MEU
RECORTE, MEU FOCO.
cheguei
no TREM SOCIAL
e
foi aí que embarcou meu primeiro personagem. sua fala mais importante:
O
TREM NÃO É DA FCA, É CONCESSÃO
...
mas isso pouca gente sabe.
um
andarilho.
com
o olho pregado na linha, esse sujeito andou de montes claros à monte azul,
parou em cada estação, conversou com cada gente, se inteirou de cada situação,
regou e plantou sementes de trem. pra ele era o seguinte: trem de passageiros nos trilhos. nós
também ou ninguém.
e
com muito respeito, engrossamos o coro:
ai
ai ai,
num
mexe cumigo não
sem
trem de passageiro
carga
aqui num passa não
depois
vimos escrito em cartazes, filme da última viagem:
ninguém
é mais do que ninguém
queremos
nosso trem
(com
fé em deus)
o
trem não pode parar
o
pobre precisa viajar
(com
fé em deus)
fim
da estrada
esse
dia terrível ficará na história de monte azul
em setembro
o trem chegou. em setembro partiu. moço,
isso aqui se impregnou
num desencanto.
“a
minha rede
ainda tem seu cheiro
minha moringa
ainda tem seu gosto
amanhã já é janeiro
pra quem partiu em agosto
lua nova cheia de alegria
brilhava nos seus olhos
naquele dia
eu não sabia sabiá
que era o olhar
de quem partia
você foi levando as águas
faz é tempo que choveu
não sei quem mais chora as mágoas
se é a terra ou se sou eu”
ainda tem seu cheiro
minha moringa
ainda tem seu gosto
amanhã já é janeiro
pra quem partiu em agosto
lua nova cheia de alegria
brilhava nos seus olhos
naquele dia
eu não sabia sabiá
que era o olhar
de quem partia
você foi levando as águas
faz é tempo que choveu
não sei quem mais chora as mágoas
se é a terra ou se sou eu”
Minha
rede, Roque ferreira
MAQUINISTA
NÃO ERA SÓ CONDUTOR. ERA TUDO.
fomos
ter, então, com o segundo personagem do meu trem.
começou
na rede como categoria de base. terminou como maquinista. nunca deixou o
sindicato. trabalhou ali 24 anos, 7 meses e 12 dias. fez a última viagem do
TREM AZUL, depois pediu desligamento. era tanto “pelo amor de deus, moço, num caba cum
trem naum...” e aquilo ia machucando... porque o
ferroviário, el’apega com as coisa.
esse
aqui esteve em bh
puxando faixa, queria dizer que NÓS éramos contra aquele modelo de
privatização.
-nós
quem ô capiau? é deputado, por acaso?
-ô
pião, você é FERROVIÁRIO?
(...claro
que não... quem não é ferroviário não leva NÓS no coração... leva SÓS,
solidão.)
esse
era o FAMIGERADO TREM BAIANO.
SOMOS
FERROVIAS, PORTOS E TERMINAIS. SOMOS TODOS. SOMOS UM. SOMOS A VL!
entendi.
essa privatização só aconteceu porque o governo era vagabundo. em país de
primeiro mundo, a concorrência do trem é com companhia de avião. governo
mancomunado com construtora, com empresa de ônibus, com o diabo. Ê
FERNANDO HENRIQUE DO CAPETA!
e
rachamos o pequi. depois do beleza, fomos embora dali...
“Foi
então que um violeiro chegando na
região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração”
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração”



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